quarta-feira, outubro 18, 2006

Histórias dos nomes das vias - Fenda

A Intifada e o pão de noz
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Seguindo a lógica do “à meia dúzia é mais barato” e também para adiantar serviço no pagamento das minhas dívidas postais à Isabel, vou despachar já a história de duas vias do Portinho. Lá para o ano de 98 ± 1 (DP), eu e o Rui Pimentel (o melhor de sempre do Top 30 português) estávamos entretidos a furar uma nova via ali duas à esquerda do Rei da Sardinha. Enquanto aí estávamos éramos atacados à pedrada por um moreno barbudo que estava uns 20 m mais acima a furar outra via. A idade não perdoa e já não me lembro se esse barbudo moreno tinha um turbante, mas parecia mesmo um árabe a atacar-nos com pedras, que faziam ricochete na parede por trás de nós e nos obrigavam a encolher a cabeça entre as orelhas. Esse moreno sujo (de pó branco) e barbudo, com cara de chefe de bando de salteadores, era o Francisco e a via que equipou passou a ser conhecida como a Intifada.
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À nossa via, por outro lado, estava associado um momento histórico. Não pela via, que era apenas mais uma conquista roubada pela imaginação, a uma parede que teimava em nos esconder sob a terra e a podridão as suas linhas, mas por outra razão mais ligada com a resposta à prosaica e diária pergunta “o que é que se come?”. Aconteceu que naquele dia o Rui Pimentel, cansado dos pacotes de bolachas, resolveu trazer do café uma novidade gastronómica. Um pão. Não um qualquer saloio ou grande, com passas ou alentejano. Era um pão de noz. Claro, isto hoje parece banal, mas na altura foi uma revolução alimentar! Foi o começo, senão de uma moda, de uma filosofia nutritiva. Este marco histórico, cujo futuro alcance nós logo pressentimos ao ver as migalhas que sobravam no fundo do saco, foi devidamente assinalado. Assim, ritualmente, com essas migalhas baptizámos aquela via: “Pão de noz”. Para além de escalar e equipar, este alimento também passou a ser sagrado e tornou-se o Pão de Noz de cada dia.
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by Filipe Costa e Silva