sexta-feira, abril 18, 2008

História de uma via nova

Mais um texto do Nuno Pinheiro!
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Era uma vez, há muito tempo atrás mais precisamente em 2005, umas férias demasiado fanáticas na Tailândia que resultaram no início de uma lesão crónica no cotovelo. Não podendo escalar dediquei-me a procurar paredes e depois a equipar a Azóia. Aproveitei também para organizar um passeio de canoagem na Arrábida com o qual há muito sonhava. O pessoal da empresa onde alugamos as canoas, a Vertente Natural, também escalavam e ao saberem do equipamento da Azóia falaram-me da grande e ainda virgem cova dos Pinheirinhos. Na altura toda a parede era quase desconhecida, só havia uma via do lado direito aberta pelo Carlos Pereira e Zé Carlos.
Na travessia de canoagem Portinho da Arrábida - Azóia que durou dois dias pude ver muitas paredes mas sem dúvida que a que mais me impressionou foi a gigantesca cova.
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A dificuldade de aceder à base da via, a dificuldade aparente da via, a dificuldade de equipar, a dificuldade de ver a linha óbvia, etc, fez com que o equipamento da via fosse sendo sucessivamente adiado.
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Uns meses depois a grande dupla Roxo&Grilo não se deixaram dormir e abriram a primeira via na cova, “Viagem Sem Rumo”, ficando assim resolvido o acesso à base da linha que queria abrir. O tempo foi passando e as vias nos Pinheirinhos multiplicaram-se. Quase sempre pelas mãos do Roxo.
Num dos dias em que o Filipe equipou um pequeno grande sector de desportiva com três vias, uma delas a espectacular “Santa Vitoria”, eu fiz uma tentativa mas acabei por desistir pois a linha mais uma vez pareceu-me demasiado dura.
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Passaram mais dois anos sem que a cova me saísse da cabeça, entretanto fui ganhando experiência a equipar um pouco por todo o lado, sobretudo nas enormes paredes de Sagres e já me sentia mais à vontade para equipar a gruta. Para ver melhor a linha fiz uma via do lado direito, pedi fotos ao Grilo e decidi que era desta. Os projectos no Espinhaço e a vontade de ir em forma para Kalymnos não me deixavam um dia livre. Acabei por ir de férias mas antes de ir falei da via ao Leo e só com a ajuda da Isabel o consegui demover de a equipar. No regresso de mais umas férias demasiado fanáticas, não podendo escalar pois vim com o cotovelo outra vez lixado e por respeito ao Leo que deixou a linha para mim, no primeiro fim-de-semana fui directo para os Pinheirinhos.
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Não foi fácil pois a via é uma grande diagonal extraprumda mas com nove horas de trabalho ficou mais ou menos pronta só faltando escovar uma pequena secção.
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A travessia de acesso é comum com a "Viagem Sem Rumo" não estando por isso equipada. O primeiro largo é uma pequena travessia (+-10m) com três chapas, mais ou menos vertical e que termina no inicio da parede mais extraprumada. Deve rondar o 6b, os graus são palpites pois a via ainda não foi provada. Esta reunião fica numa parede vertical com um degrauzito para os pés, não é suspensa mas também não tem o conforto de uma sala de estar, é pena, pois de certeza que quem provar a via vai lá passar muito tempo!
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O segundo largo é uma mega diagonal com cerca de 30 metros e doze chapas que acaba antes de a parede tombar. Abundam as presas grandes, mocos, chorreiras e buracos mas também tem uns passos duros em presa mais pequena. Deve ser oitavo.

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O terceiro largo é fácil, tombado e cheio de arbustos, só tem três chapas no início seguindo-se um super runout até à reunião da "Viagem Sem Rumo" constituída só por uma plaquete. Dessa reunião é possível sair da parede a andar seguindo o corredor para a esquerda. É recomendável levar algum material de clássica tanto para a travessia de entrada como para o largo de saída.

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Agora os agradecimentos:
Obrigado ao Leo por ter deixado a via para mim.
Obrigado à Isabel por ter convencido o Leo.
Obrigado ao André pelo berbek.
Obrigado ao Grilo e ao Roxo pelas fotos.
Obrigado aos muitos sherpas que me ajudaram a carregar o material, Leo, Miqueis, Hugo, Filipe, Miguel, Zé Abreu e Romana.
Por último mais uma vez obrigado à Espaços Naturais pelo o apoio em material.
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Já me ia esquecendo o nome da via é: A Dança dos Priapos, a explicação fica para outra altura que hoje já escrevi muito.
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3 Comments:

At 21 abril, 2008 10:31, Blogger Miguel Grillo said...

Conhecendo a enorme abóbada dos Pinheirinhos, esta é sem duvida uma das mais impressionantes linhas de escalada.

Parabens Nuno! Certamente uma via de dificuldades impressionantes (fisicas e certamentes mentais, pois o vazio é realmente absoluto).

 
At 21 abril, 2008 14:34, Anonymous nuno said...

Deve ser uma escalada no vazio e um pouco solitária pois parece-me que em metade da via o segurador não vê o escalador.

 
At 21 abril, 2008 21:00, Anonymous Anónimo said...

O segurador não vê o escalador... excepto quando o escalador voltar a aparecer uns bons metros atrás do segurador, com os olhos esbugalhados e as calcinhas todas borradas, depois de um belissimo vôo atado ao cordel que decerto lhe irá parecer muito fininho.

Faço minhas as palavras do Miguel.

Paulo Roxo

 

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