Estávamos no ano de 2005 quando eu fui pela primeira vez à Marsupilami, só para ver como é que era. Tinha encadeado 7c+ e como na escalada queremos progredir fazia sentido provar um 8a. Apesar de pouco (ou nada) me mexer na via rapidamente fiquei motivada com a exigência técnica desta via.
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Comecei a estudar os passos e depois de resolver o cruzamento para a reglete e a saída do calcanhar ainda andava às batalhas com os aplates do passo de saída. Com uma dica aqui e outra dica ali do pessoal mais experiente que sempre tem gosto em ajudar uma rapariga nestas andanças, eu consegui bloquear no aplate de esquerda e apanhar a invertida de direita, colocar o pé esquerdo dentro do buraco manhoso e juntar as mãos na invertida. Uma vez feitos os passos todos só faltava encadear!
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E foi num fim-de-semana, em véspera de ir para a Patagónia, que passado uma hora de estarmos no café da praia a ver os barcos passar com uma chuva torrencial e um céu cinzento a desabar por cima de nós que eu consegui convencer os meus companheiros para subirmos até à fenda. O pessoal ainda contestou e tentou demover-me “Tás maluca Isabel?” “Não vai haver nenhuma via seca”, mas antes que pudéssemos voltar para trás eu tomei a dianteira do grupo e só parei lá em cima já abrigada debaixo das vias.
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As condições para escalar, escuso dizer, eram péssimas (os meus companheiros podem comprovar), mas eu estava demasiado motivada para encadear a via antes de ir para umas férias pouco fanáticas e com muito trekking. Lá pus as cintas na via, sempre a chover. As condições pioravam a cada minuto e o cimo das vias começava a molhar-se aos poucos, mas eu continuava motivada igual. E assim foi, calcei os pés de gato e fui por ali acima, fiz o crux e descansei no buraco. Olhei para cima e a via já escorria água… Segui para cima e fiz o famoso passo dos aplates e depois… depois caí. A água já tinha chegado aos passos finais e não consegui aguentar-me nas presas molhadas para ir chapar o top. Fui de férias com o sabor amargo de a (quase) ter encadeado.
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Passou o tempo e a motivação para a via diminuiu... Ainda lhe dei uns pegues mas parecia que tinha perdido a motivação para a encadear e a coordenação para os passos duros.
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E quando eu já pensava que essa via era carta fora do baralho e que nunca a iria anotar no meu livrito, lá enchi o meu pote de fanatismo com mais algum pó de motivação e em menos de nada já estava a cruzar, a tirar o calcanhar, a blocar para os aplates e a chapar o top!
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Este é sem dúvida um dos meus encadeamentos mais saborosos porque foi o “primeiro” osso duro de roer. Mas como já se sabe quanto maior a luta maior a satisfação!
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Eu na Marsupilami em 2005.