segunda-feira, dezembro 20, 2010

Into the Wild Grass

Não faço a mínima ideia que horas são. A minha escala de tempo rege-se em largos de escalada, só sei que já anoiteceu há dois largos atrás. Está frio, a ténue luz laranja da Barragem de Aldeia D’Ávida é a única luminosidade que os meus olhos alcançam. O Nico já não o vejo há algumas laçadas de corda. O vento sopra mais forte agora e a sua força faz aumentar os 300 metros de vazio que me separam das águas do Douro. Não podia estar mais suspensa na reunião construída nesta simpática fissura vertical que em boa hora encontrámos. Os últimos metros que me conduziram aqui foram escalados em travessia num flake completamente oco que por sorte do destino decidiu não se partir com a minha passagem. Sorte a minha! Cair em pêndulo totalmente suspensa no ar não era o que mais me apetecia a esta hora. Podia desligar o frontal e sentir este momento de escuridão e tranquilidade com outra sensibilidade. Agora já me vou habituando à noite, desde que iniciámos a escalada eu já sabia que este momento ia chegar, só ainda não sei o que o futuro me reserva. Será que vamos ter de dormir por aqui?!... Espero que não, já faz tanto frio e pelas minhas contas ainda nem é meia-noite.

Uma aventura no Douro

Desde a primeira vez que li a fabulosa descrição do Roxo e do Grilo sobre a primeira aventura deles no Douro Internacional aquando da abertura da via Terra de Ninguém que eu tinha ficado com a pulga atrás da orelha para ir até lá. A vontade de lá ir ainda aumentou mais com os relatos do Roxo e do Bruno aquando da abertura da via Dança dos Estorinhos, e também da Daniela que abriu com o Roxo a via Piu, desta vez do lado Português. Claro que como aconteceu ao Rosado os anos foram passando e só este Outono consegui ir finalmente até ao Douro Internacional ver as famosas paredes “big walleiras” de Portugal. Quer dizer, Portugal salvo seja, porque como seria de esperar as falésias essas estão na margem esquerda do Douro em território espanhol.

Os leitores mais apressados e menos interessados têm aqui a oportunidade para usar o “scroll” do rato e assim passar à frente este relato que se adivinha grande, muito pouco resumido. Na verdade a passagem fugaz pelas fotos e croquis já dá uma ideia da aventura e poupa-me futuras criticas maliciosas ao meu terrível jeito para à síntese. Para quem estiver sem nada para fazer proponho entretenimento para a próxima meia hora.

Depois de ver e rever as fotos do Rui Araújo da descida do Douro Internacional em canoa, motivei-me para ir lá tentar abrir uma linha no pedaço de rocha que o Roxo e afins companheiros, passo a citar Grilo e Bruno, ainda não tivessem tocado, ainda não tivessem escalado. O fim-de-semana do 1 de Novembro adivinhava-se próximo e ideal para a aventura. Organizei a logística que incluía não só juntar todo o material de clássica, como também pedir emprestado material extra, que não sendo eu uma habitué nestas lides, ainda não tenho a parafernália toda necessária para este tipo de ascensões. Só faltava o mais importante encontrar uma canoa para aceder à via. Sim, porque para aumentar a aventura decidimos fazer a aproximação em canoa e começar a escalar directamente das águas do Douro. Logísticas à parte, a aventura seria muito mais interessante.

Saímos de Lisboa, eu e o Nico, num sábado bem chuvoso. Pronto, é verdade que não tive fairplay e escolhi um companheiro de cordada que passaria a minha sobredosagem de aventura a níveis mínimos de consumo, no entanto, valores mínimos mas suficientes para aumentar o meu batimento cardíaco em cada situação menos simples e mais terrorífica. Com o céu azul visível em cada 10 minutos e esparsas gotas de água de quando em vez, decidimos ir fazer o reconhecimento do local, e ver bem de perto a falésia de Aldeia D’Ávila. Ansiávamos por ver finalmente o famoso Picón la Carrocera.

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Vista para jusante do rio Douro Bruçó

De Bruçó remamos em direcção à margem espanhola e daí seguindo as falésias de perto chegámos à famosa parede vertical. As zonas de tombado que eu tinha antevisto nas fotografias do Rui foram substituídas por rocha vertical e por um monte de tectos, que se vão transformando e aparecendo em estilo dominó á medida que vamos subindo em altura. As fissuras e presas que tornariam a nossa ascensão fácil e com pouca história foram substituídas por fissuras cegas com um final a termo certo. Estava claro aos nossos olhos: a escalada não se via fácil. Iniciar a via directamente da água seria uma tarefa difícil, senão mesmo impossível, sem recurso à colocação de material fixo na parede evitando assim uma possível queda nas águas do Douro se da canoa o escalador se conseguisse desviar. Mas incidentes à parte, não tínhamos intenção nem de perder preciosos minutos com infinitas marteladas para satisfazer o nosso receio mental, nem deixar provas da nossa passagem por aquela falésia. Estava decidido vamos começar em poiso seguro, vamos começar pela floresta do Bornéu. Visualizamos a potencial linha e fomos preparar a nossa escalada do dia seguinte alimentando-nos com popa e circunstância, com uma bela posta à Mirandela.

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Na canoa rumo à Barragem de Aldeia D'Ávila
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A falésia e os inúmeros tectos
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As famosas paredes de Aldeia D'Ávila
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O despertador soou já se ouvia ao longe o cantarolar dos galos da população vizinha, e os raios de luz iluminavam a tenda despertando-nos serenamente. Como se cedo se tratasse ainda nos dispusemos a organizar mais uma vez o material. Sim, porque uma das tarefas mais comuns e apreciadas pelos escaladores destas lides é organizar o material, dispondo-o meticulosamente por ordem de tamanhos e funções todos os friends, entaladores, pitons, unhas, entre outros preciosos objectos, e contemplar com distinto orgulho anos de colecção. E corrijam-me se estou enganada!

Foi relativamente fácil encontrar o acesso até à floresta do Bornéu e especialmente agradável encontrar algumas cordas fixas que nos ajudaram a melhor escorregar na rocha e musgo molhado pelos infernais dias de chuva que antecederam a nossa chegada. Faço aqui um parêntesis para saudar os primeiros aventureiros, Roxo e Grilo, pelo modo assaz correcto com que baptizaram a floresta do Bornéu. É de facto evidente, que melhor designação não haveria para baptizar aquele monte de árvores e arbustos que desfloram pelo canal abaixo. O mesmo se aplica às designações estupendas dadas a cada reunião e característica mais saliente de cada largo. Recomendo por isso uma visão atenta do croqui da Terra de Ninguém. Mas voltando ao assunto a que este relato se refere e voltando por isso à dita cuja floresta, lá seguimos nós entre mais escorregadela, menos escorregadela, mais silvas menos silvas até alcançarmos a mariola que gentilmente deixamos construída para ajudar os inúmeros repetidores.


A entrada para a floresta do Bornéu
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A floresta do Bornéu
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Cheia de motivação e com um sorriso de orelha a orelha dispus todo o material pelas argolas do meu arnês, calço os pés de gato e aí vamos nós. Subo uns dois metros até quase alcançar a fissura que possivelmente tornaria a minha escalada mais segura. Procuro uma presa menos molhada para a mão e uma zona com menos musgo e terra para o pé. E vai para cima e vai para baixo e “Ufff, não chego. Ui, tenho medo. Ai que posso escorregar. Huumm, a fissura parece cega…. Estou com medo! Pronto… desisto” O sorriso que ia de uma orelha à outra desvaneceu-se e renegada passei todo o meu material ao Nico. “Que desilusão” pensava eu, à mínima dificuldade já estou a desistir… E foi com alguma satisfação que vi a cena repetir-se, desta vez com o Nico “Ui, está molhado. A fissura parece cega. Ainda escorrego. Ok, passa-me um piton”. Pim pim pim, martelada ora no piton ora na unha, mais algumas técnicas de escalada artificial que passo a abreviar para não tornar este relato demasiado monótono para o leitor. E aquilo que nos parecia era verdade, a fissura era mesmo cega e por ali não íamos escalar em livre. Passado uma hora de brincadeiras artificiais decidimos procurar outras alternativas, a chaminé mais à direita mostrou-se algo descomposta, a fissura à esquerda terrorífica, até que avistamos um canal de ervas que até terminava num diedro bem louco. Ala que se faz tarde.
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O 1º largo da Into the Wild Grass
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A preparar-me para o segundo largo

Em menos de nada já estávamos a escalar o segundo largo da via. Lá ia, mais uma vez o Nico em passos mais expostos ou seguros por friends e entaladores precários, numa escalada em rocha sólida a caminhar para o descomposto. Eu assegurava tranquilamente embrenhada nos meus pensamentos, quando o Nico olha para mim com um olhar incrédulo e grita “Está aqui um piton!”, mais metro e meio de escalada “E está aqui uma plaquete!”. Com mil demónios! Então não é que o Roxo, aquele devorador de rocha nunca antes escalada também já tinha por ali passado com o Grilo! Mas aonde é que está a emoção de estarmos num local selvagem, terreno nunca antes escalado, perseguirmos a fissura sem sabermos se esta nos vai levar a um bom porto e de repente vermos que outros já ali tinham estado? Enfim, um pouco desiludidos lá montamos a reunião na plaquete e sentamo-nos na laje onde anos antes o Grilo e o Roxo já tinham estado provavelmente a trocar dois dedos de conversa. Dali metemos marcha a ré, e fugimos a sete pés. Seguimos a fissura mais estranha e esquisita para a esquerda e assim desviamo-nos heróicos da primeira tentativa à Terra de Ninguém quando decorria o ano de 2004.



O 2º largo junto ao piton da Terra de Ninguém
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Ainda escalamos mais dois largos, sempre com o saco entaladores em punho para limpar a terra que teima em aninhar-se nas fissuras. A limpeza foi mínima e egoísta, apenas onde dá para uma presa de mão e uma protecção. Não esperem por isso fissuras prontas a consumo. Deixámos a via quase no mesmo grau de aventura para os próximos repetidores.

E nada mais há a assinalar para este dia, porque ao fim do 4º largo ficou de noite e lá tivemos de abandonar dois entaladores para rapelarmos e sairmos dali para fora. Não sem antes eu conseguir abrir o frontal em pleno rapel e ter a infeliz sorte de perder uma das pilhas e ficar em negra escuridão sem noção para onde é o norte e o sul. Com algum nervosismo lá me auto protejo com uma fita à volta de um calhau que me parece mais sólido que outros com que me tinha cruzado nesse dia, e espero que o Nico com a única luz que tínhamos descubra a famosa plaquete para seguirmos o rapel até ao chão. E assim chegámos sãos e salvos ao carro, desiludidos mas ao mesmo tempo contentes. Tínhamos um projecto, a rocha era boa, a escalada também, estávamos motivados para cá voltar.

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Início do 3º largo. Escalada muito boa... em rocha também muito boa!
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O nosso "amigo" com os mantimentos, água e muita roupa quente
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Para a segunda tentativa que teria lugar mais cedo que tarde, já tínhamos tudo controlado: a Floresta do Bornéu, o início da via, o material necessário, e tínhamos a motivação em alta. E claro que a dose de fanatismo e motivação é sem dúvida o mais importante!

Voltamos no fim-de-semana seguinte, quando já não choviam facas nem canivetes e a previsão até era de sol. Desta vez o despertador soou amavelmente às 4:30h e fomos nós que acordamos as galinhas e não vice-versa como no fim-de-semana anterior. A vantagem estava desta vez do nosso lado e em brenha escuridão e tratando por tu a floresta do Bornéu rapidamente nos encontrámos junto à mariola, que volto a sublinhar, lá está para futuros repetidores.

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O amanhecer na floresta do Bornéu

Em menos de nada estávamos nós a recuperar os dois entaladores que tínhamos deixado para o rapel e em menos de nada estávamos a deixar no fundo do rio Douro um saco cheinho de frutos secos e um recém comprado Camelot C4 0.3. O saldo era portanto, nesta altura, negativo. Dois entaladores menos um camalot e um saco de frutos secos. O 5º largo foi gigante, quase 60 metros de escalada onde se começava a notar ou por via visual ou por via olfactiva a presença das famosas aves de rapina que dão fama ao local. Aqui baixámos ainda mais o nosso saldo ao deixarmos um C4 1 perdido numa fissura demasiado estreita. Claro que o abandono de um friend neste local é propositada. Trata-se de um esquema mirabulesco para trazer repetidores à via. Sim, porque eu sei que há por aí gente capaz de muita coisa só para recuperar um camalot. Para que não haja dúvidas, está na última fissura do 4º largo e é oferta da casa!

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2º largo da Into the Wild Grass
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Eu no 2º largo
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Eu ainda no 2º largo
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Nico a abrir o 3º largo. Escalada excelente em fissura técnica
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O meu C4 nas águas do Douro
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O 4º largo largo termina no famoso Pátio das Cantigas, uma das melhores reuniões da via. Daí seguimos a linha evidente que viemos a constatar é a mesma que a Terra de Ninguém e que acabou por ser o largo mais duro da via 7a, agradavelmente protegido por uma plaquete do Grilo e do Roxo. Daí seguimos pelo Bela Flake até alcançarmos a Sabina Divina, onde nos despedimos da Terra de Ninguém optando por uma fissura vertical só alcançável após escalada da árvore que se encontra na reunião. Estamos portanto no 7º largo e aqui deixo um aviso para aqueles que ainda quiserem seguir por esta linha e não fugir à direita em direcção ao estético diedro laranja, o ex-libris da Terra de Ninguém. Durante a escalada deste largo e tendo em conta a lei das probabilidades, no preciso momento em que é assaz necessário atirar para as águas do Douro um calhau maior que os famosos LCDs que agora fazem berra nas lojas da especialidade, passa debaixo de nós o Barco de Excursões à Barragem de Aldeia D’Ávila. Não querendo causar danos a terceiros optámos por deixar o dito LCD intocável no mesmo poiso onde o encontrámos, ficando por isso à mercê de qualquer mão menos atenta. Cuidado!

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Nico no ínicio do 4º largo, o maior da via
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A reunião no final do 3º largo
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Nico no final do 4º largo
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A melhor reunião da via, o Pátio das Cantigas
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O seguinte largo foi o último que ainda escalamos com a presença da luz do dia. Depois de escalar em travessia um mini tecto, o largo segue por uma chaminé até encontrarmos uma árvore despida de folhas. Aqui à que subir na fissura apenas para colocar a calmante protecção, destrepar em seguida e escalar em travessia a fissura cega onde os líquenes são em tudo não bem-vindos. Não é duro, mas é exigente!

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Nico no 5º largo que é comum à via Terra de Ninguém
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Vista das possibilidades de escalada na parte esquerda da parede
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Eu numa reunião forçada antes do canal de IV grau
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Croqui da parte final da via Into the Wild Grass
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Reunião do 6º largo da via, na Sabina Divina
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Eu no 7º largo. Tem de se escalar a árvore Sabina Divina até alcançar a fissura principal do largo. Muito bom!
Ah! Cuidado com o calhau solto
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Já na parte final do 7º largo
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Ainda no 7º largo
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Nico no ínicio do 8º largo. Excelente escalada!
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Nico a entalar o joelho para entrar na chaminé
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Daí foram precisos mais 2 largos em franca escuridão apenas iluminada pelas cores dos nossos frontais para chegarmos aquilo que eu tanto desejava, parede menos vertical, escalada mais fácil, diversas alternativas, menos escalada aérea, etc etc… É que durante toda a via ao olharmos para cima só vemos tectos e mais tectos e para baixo só vemos ar e mais ar. Antes ainda de alcançarmos este terreno mais fácil e simpático, ainda tivemos de deambular em travessia para encontrar o único caminho possível. Pela primeira vez vi no Nico algum nervosismo trasladado em alguns esparsos “Fu$%#&, a fissura é cega”. Em plena escuridão com o frio de quase inverno a apertar, não nos encontrávamos em boa situação. Com o saco entaladores novamente em punho o Nico lá limpa abruptamente a fissura para de ali aflorar o local menos mau para a preciosa colocação dos friends e entaladores.


Eu na reunião do 9º largo
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Para acalmar o espírito, os dois últimos largos são honestamente fáceis, sendo que o último está cotado em 4+ de acordo com o grau Erva Tracção. E passo a citar as palavras do Rosado “ficas mesmo surpreendido quando metes o pé num socalco de terra existente na fissura e qual ampulheta a terra começa a desagregar-se e a escorrer, sabes que tens entre 10 a 30 segundos para encontrar uma boa presa“ e pirar-te dali. O Nico optou pela técnica de escalada em gelo para o último largo. Para bom entendedor meia palavra basta.


Nico na reunião do Passeio no Parque (11º largo)
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O cume!
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Chegámos ao carro ás 23:30h, satisfeitos por desta vez termos chegado ao cume escalando o Picón la Carrocera e não caminhando pela Floresta do Bornéu.

É sem dúvida um lugar estupendo, com bastante miticismo e excelente para escalar. Existe alguma erva e muita terra, as fissuras não estão limpas e as protecções nem sempre são à bomba. A escalada é muito técnica e vertical, sendo por isso bastante exigente. Ainda por lá há bastantes possibilidades para outros amantes deste tipo de escalada e aventura.

Sendo um local de grande sensibilidade ecológica, inserido em pleno Parque Natural de las Arribas del Duero, devemos respeitar a época de nidificação das aves e por isso não escalar nos meses de Janeiro a Agosto, inclusive. Aconselha-se contudo evitar os meses mais quentes.

Não posso terminar este relato sem antes agradecer ao Roxo e ao Grilo por despoletarem em mim a curiosidade pelo local, e felicitá-los por terem sido quiçá os primeiros a escalar o Picón la Carrocera. São eles os principais responsáveis desta aventura.

E que venham os próximos!

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Into the Wild Grass
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Croqui da via Into the Wild Grass
Qualquer semelhança com os croquis do Roxo é pura coincidência :)
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Picón la Carrocera